Bonde Urbano Digital (BUD) atrai olhares, mas revolta trabalhador de Piraquara por lentidão e ineficiência
Vendido pelo governo como a revolução da mobilidade na Região Metropolitana, o veículo de “trilhos virtuais” amarga críticas da população, que o classifica como “obra para inglês ver”. Afinal, a quem serve o novo transporte que ignora a rotina de quem acorda cedo?
Era para ser o futuro chegando ao asfalto da Região Metropolitana de Curitiba. Desde que o Governo do Estado iniciou as operações completas do Bonde Urbano Digital (BUD) entre o Terminal São Roque, em Piraquara, e o Terminal Metropolitano de Pinhais, o imponente veículo chinês de 280 lugares tem sido a principal atração visual da Rodovia Deputado João Leopoldo Jacomel. No entanto, para a população que depende diariamente do transporte público, a tecnologia de ponta esbarra em um problema antigo: a falta de praticidade. O que deveria ser um alívio transformou-se em motivo de indignação e questionamentos.
Nas ruas de Piraquara, o sentimento geral é de frustração. Trabalhadores que enfrentam a rotina exaustiva de deslocamento até a capital ou municípios vizinhos apontam que o BUD tem se mostrado extremamente lento, tornando a viagem de cerca de 10 quilômetros uma verdadeira prova de paciência. A inovação dos “sensores magnéticos” e da condução quase autônoma parece não compensar a falta de agilidade. Para muitos passageiros ouvidos informalmente nos terminais, o bonde elétrico não passa de uma “obra para inglês ver” — um projeto milionário feito para enfeitar propagandas governamentais, mas que falha em resolver o gargalo real da mobilidade urbana.
A maior prova do descompasso entre a novidade tecnológica e a vida real do trabalhador está na grade de horários. Como explicar para o cidadão que precisa bater ponto às 8h da manhã que a “revolução do transporte” opera, inicialmente, em horários de baixíssima demanda, como 10h15 e 14h15? A população questiona abertamente: de que serve um veículo altamente tecnológico, com ar-condicionado e tarifa integrada, se ele simplesmente não está disponível quando o povo mais precisa ir e voltar do trabalho?
Diante desse cenário, a sociedade é convidada a refletir. O Bonde Urbano Digital representa, inegavelmente, um passo em direção a um futuro mais sustentável e livre de combustíveis fósseis. Mas, na prática de 2026, até que ponto ele tem sido realmente útil? Uma verdadeira política de mobilidade deve ser medida pelo tempo que devolve à vida das pessoas, e não apenas pelo brilho do maquinário. Enquanto o BUD desfilar lentamente pelas avenidas apenas em horários de calmaria, ele continuará sendo visto pela classe trabalhadora de Piraquara não como uma solução, mas como uma bela — e lenta — maquete em tamanho real.
Fonte: Wagner Modesto
